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Todas as pedras brilham...

Ao observar o que me fascina nas pedras brasileiras, notei que me agrada muito o seu brilho, roxas, amarelas, verdes, azuis, formas variadas, num jogo de encantamento:não há uma igual à outra mas me revelam que são todas por uma e uma por todas.
Cada uma com seu brilho próprio formada há tanto tempo, que nem consigo imaginar a idade delas. São pedaços de uma mesma pedra ou são de pedras diferentes? Mas isso não importa, isso é computar sobre as pedras e não senti-las. É fazer com que elas percam o seu brilho.
Nesse jogo mágico de reflexões, as pepitas me emprestando o seu brilho e eu também me permitindo brilhar, nessa brincadeira de luz, vejo em imaginação a pedra por fora: de casca dura, ásperas, grossas, escuras, frias, feias que vem após camadas e camadas que foram se endurecendo.
Então me dei conta do contraste, por dentro o brilho único e quanto mais externamente mais opaca e igual às outras de sua espécie.
Nesse ponto eu me pergunto como é a natureza da pedra, e junto da expressão tão popular sobre as "pessoas com coração de pedra" !

Quem falou isso pela primeira vez nunca viu uma pedra por dentro, senão não se afastaria dessas pessoas frias e duras, malvadas, insensíveis. Pelo contrário, se chegaria a elas para ajudá-las a descobrirem o seu lado de dentro: sensível, cristalino, puro, único.
Eu acho que nós, seres humanos, emprestamos um pouco da essência da pedra para formarmos a nossa identidade. Mas como cada espécie tem o seu segredo que a toma única, saímos perdedores pois imitamos apenas o lado de fora da pedra.
Sentimos tanto medo da solidão que não nos permitimos e não queremos exercer o nosso brilho próprio, pois isso seria admitir que somos diferentes uns dos outros. Mais fácil é ser igual, passamos desapercebidos, camuflados como medida de defesa, só que esquecemos, acomodamos, sossegamos e petrificamos (tornamos-nos pedras!). E pedras que não revelam brilho servem para fazer massa de cimento, esquecidas para sempre sob a tinta e a decoração de paredes, fachadas, alicerces, Lages; servem para filtrar água de poços, agregando-se às impurezas das águas que servem livre o seu fluxo, servem também para cobrir estradas de terra, onde veículos e pessoas passam por sobre elas. Abrem mão da sua individualidade, são todas pedras iguais e serão sempre vistas em conjunto, como massa. Assim somos nós, seres humanos que se negam a brilhar, morremos de fome, somos pisoteados, somos depósitos de bobagens, colocando-nos como vitima dos acasos infinitos da mídia, dos fenômenos da natureza, dos outros seres iguais a nós que fazem o mesmo que nós.
Mas, um jovem garoto, conhecedor do brilho que tem, mas por medo de ser diferente, (porque quem é diferente convive com perigos aniquiladores!) não o mostra com freqüência, me disse veementemente: "Toda pedra brilha! Não só as preciosas. Toda pedra brilha..."
Então, só nos resta enfrentar a confusão que o poder de criar e de brilhar nos oferece. Isso é viver. Viver da própria luz. Iluminar...

Sheila Zambrini - Psicóloga, atua em Psicologia Escolar, trabalhando para que cada educador e cada educando nunca parem de brilhar e em Psicologia Clínica, para que cada pessoa recupere o brilho que um dia deixou ofuscar.